HANG TEN

HANG TEN

quarta-feira, dezembro 18

70 ANOS, HOJE



Contra todas as previsões e maldições, sete décadas de vida.

Parabéns ao verdadeiro Homem de Aço.

. Essas Coisas São Assim Mesmo .



(Desenhos reduzidos. Clique com o botão direito e peça para abrir em outra guia.)







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Esta deve ser do meio dos anos 90, não tenho certeza. Mas nela - independente de quando - fiz perguntas que ainda me valem hoje.

E acho que amanhã, ainda independente de quando, vou continuar achando que Essas Coisas São Assim Mesmo...

sábado, dezembro 7

. Dois Jovens Contos de Um Velho Surfista .




. Dois Jovens Contos de Um Velho Surfista .

1.

O quadro negro virava uma onda de uns dois metros e nele eu aprendia a vontade de voltar pra casa. Reprovei pela vontade.

(Eu tenho que escrever sobre minhas ausências frequentes enquanto eu queria mais era surfar.)

Numa dessas coisas de “responder chamada”, vi um pássaro chegar à janela da escola que de onde eu estava via. Fiquei reprovado mais pelo pássaro do que por minhas notas. O pássaro era só um bicho comum com asas. Eu era só um bicho comum querendo tê-las.

...

2.

Um dia todo surfista irá completar manobras em um colchão encostado no sofá, verá meio metrinho bem servido, completará um radical com o que resta da velha graça nas ondas e, depois de surfar, dormirá uma quilometragem enorme – desde que ele mesmo a tenha começado – no mesmo colchão onde a noite já se deitou.

Nada se compara a um leque de água arrancado numa crista de onda, um bom radical no lip mesmo em boa foto ou filme não revela o ângulo que você tem do mar.

Coisas assim acontecem no trânsito, na demência e na vantagem. Criamos chaves para ligar, louça para lavar, ídolos e permanentes. Nada disso é tão, assim, pertinente...

Toda a robustez de nossa História não impulsiona a ondulação que leva até aquele colchão encostado no sofá, e é melhor estar surfando do que permanecendo.



Para meu filho na praia.
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quinta-feira, novembro 28

. João e Maria .




. João e Maria .

Eu preciso de Dodó por aqui, com sua inextinguível e simulada ausência, sua maneira séria de se amigar. E também de Amarildo, o espasmódico piloto dançarino, sua volatilidade e vida para eternizar festinhas.
Precisar deles nem faz jus ao que seria bom de verdade: eu os queria sempre vivos em todos os dias mortos pela oposição a eles.
Não há um só diabinho no mundo que não leve adiante seu papel de ser Homem, sua imparcial vontade de assumir e aguentar as máculas que vêm com o direito a ser protegido e levado, ironicamente por isto mesmo, a ser discriminado.
Não queira nunca ser protegido, ao menos não aparente precisar ser. No mundo em que vivemos isso o coloca direto no colinho do preconceito.

Eu tenho uma pergunta!

É engraçado como uma resposta pode atender tantos sem necessariamente juntar ninguém. E não há – nem nunca houve – lei que aproximasse quem quer que seja da mais berçária condição humana: o prazo. Estivemos todos lá, estamos todos aqui, estaremos todos lá. Durar é intenção de muita gente, mas permanecer tá mais pra quem se livra daquilo que se espera.

Era pra ser melhor, antes de chegarmos lá. Há um buraco – sem sacanagem... – para todos nós, e o nhenhenhém que povoa e esporra conceitos da tradicional aliança entre burros e fantoches torna o prazo menor e a festa mais chatinha. Tem gente morrendo de fome. Que catástrofe é essa que se atribui a quem se perde por amor sem escolher sexo?

Todo século tem seu mal, e em todo século estivemos. Existir não tem nada a ver com carteiras de escola, beijos, catarses ou cateter, tem a ver com se perder.

É uma tristeza comer um miolo de pão e procurar por outro mais à frente quando João e Maria podiam dar banquete.


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Para Kátia, Felipe e Carlinhos.

A ESTRADA DE 1.000.000 DE KM



Vai, Neil!

terça-feira, novembro 26

. Coisas Bonitas .





. Coisas Bonitas .

Para onde vão essas pessoas que nos dão coisas bonitas para o caminho? Para onde vão seus caminhos quando os levo comigo? Para quê tantos caminhos se os usos para além da presença só me dão mais saudade do que reencontros?

Para onde vou sempre levo as coisas bonitas que me deram, e eu quase sempre não preciso ir: gosto muito de ficar e deixar as coisas bonitas que ganhei me percorrerem por dentro.

E é então que, feito mágica, as pessoas que se foram voltam todas, como nos dias que eu percorria em suas presenças bonitas.




segunda-feira, novembro 25

. Muito Alto .

Todos os aparelhos de som estão esquentando demais.
Tenho ouvido som muito alto e muito som.
Sim, muito, muito, muito, muito alto, muito, muito, alguém tocou a campainha, muito, muito, não atendi, não ouvi, estou ouvindo muito, muito, muito, muito...


. Goofy-footer .




sexta-feira, novembro 8

O CAIXÃO DE NOSSAS ADOLESCÊNCIAS



Lembro bem quando arrancaram, em nome de sei lá que avanço, progresso ou modernidade os paralelepípedos de meu bairro. Pra essa gente, blocos de pedra sem nada a dizer. Mas juro que ouvi gritos, dos lancinantes aos abafados, quando cada gomo de minha rua foi jogado na caçamba de um caminhão sem história.

E assim vamos, lançando ao ar e no esquecimento aquilo que nos construiu em nossas dores e nossos amores. O plástico substituindo o latão, o alumínio em vez da pedra, o sorriso sem vigor abandonando numa esquina qualquer o choro incontido. Somos seres sem história, gente forrada de feno, as mãos cravadas no solo novo que não nos reconhece. Nessa marcha da invalidez gloriosa e coberta de purpurina, somos os homens-nada.

Somos ainda e muito a piscina em que não nos banhamos, a rua que nos vê passageiros, os não habitantes. Os mortos, nossos mortos, o que deles fizemos? Quanto de terra ainda jogaremos sobre seus corpos? As lágrimas secas que observo são teu epitáfio, meu irmão amante do presente a qualquer custo; são teu futuro soterrado sob toneladas de indiferença perfeitamente construída.

Quando apontas para o mar, percebes o horizonte? Teus olhos mal acostumados à luz salgada gravam as sombras, a espuma, a beleza dessa inconstância?

Mete a tua chave na porta que sonhaste; teu sonho feito de 70 metros quadrados desalmados, de portas que se abrem para quartos sem cor.

Esse é teu sonho de tinta fresca, onde jamais reconhecerás os rostos de teus pais.

quinta-feira, novembro 7

. Crescendo Baldio .

Podem me chamar de qualquer coisa nos moldes de retrógrado e afins, eu vou continuar ouvindo "nativo"...

2012...

2013...

Olha este verde, bicho...
É só o que eu queria ver crescendo nos terrenos do meu Bairro.

E ainda tem que lembrar de gente por aqui que tá negociando casa com quintal, árvores, grama, e garagem por dois apezinhos com suíte ( mas heim?!?) e pilastras na vaga da garagem...
Nunca fui lá grande coisa em matemática, mas isso aí me parece burrice... "e com piscina" - diz o espertalhão, e todo mundo grita "obaaa!".

Eu dou Nota ZERO!!!

Até levo alguma fé na tal "foi necessidade", ou "foi pela segurança...". Massa. Mas pombas, malandragem! Não dá pra negociar com alguém que não queira sair no lucro de vez em quando?
Este mundinho que cresce concreto parece mais que é feito de bosta, e com gente ainda pior que isto.

E tome piscina num Bairro que nasceu JUNTO AO MAR. É o tal negócio (que palavrinha antipática): primeiro se estraga tudo pra depois pensar em retomar a nascente.
O mar foi pro beleléu tem tempo. Primeirinho, foi o minério... Segundinho depois veio o óleo. Pisei em muita mancha de óleo na areia, vi muito óleo na água, vi muito lixo de navio aportado encalhar na beirinha, feito náufragos do progresso. Que bandeira!...

Depois de tanto massacre, tome coliforme fecal (tô falando que é feito de bosta, não tô?). Poluíram debaixo dos nossos narizes, e esta frase cai bem na receita.

Fizeram até barreiras pra parar de dar onda! Afinal, tinha o porto importante e tals, o asfalto que o mar estragava e tals, o crescimento necessário e tals... Ora, foi adeus ao Final... Afinal.

E hoje tá muito raro de dar onda e MAIS raro ainda de banhista frequentar a praia aqui do Final. Tá poluída. E sem onda.
Eu entro ainda, mesmo sem onda, que filho bom retorna ao lar de vez em quando pra visitar os irmãos: arraia, tartaruga, guruçá, garça, gaivota, água-viva... Tudo meio sumido, hoje em dia. Uma vez falei com um amigo que todos esses irmãos só apareciam pra mim, feito visão. Era a impressão que eu tinha, porque toda vez em que eu estava na praia aqui da minha casa - você tem piscina, é? Hum... - eu era o único que os via!
Cheguei a olhar em volta e ninguém estava olhando pro ponto onde eu havia visto o bicho! Fosse irmão-arraia, fosse irmã-tartaruguinha, fosse qualquer um deles, ninguém na praia estava vendo nada!

Outro dia mesmo vi uma arraia lindaça voar um metro fora d'água e a coisa de uns três metros de algumas pessoas. Eu gritei UAAAU! de tanta felicidade, porque é bonito demais ver isso tão perto e tão vivo! Cara, todo mundo olhou pra mim... Perguntei "Cês viram isso???", e todo mundo virou achando que eu queria aparecer.
E mais recente ainda aconteceu de novo. Uma tartaruguinha surgiu do lado do meu filho. Ele gritou UAAU! também mas foi de susto, hehehehehe! Mas ficou apaixonado por tê-la visto. Passou dias falando dela. E se ele pegou de mim isso de ter alucinações no mar, dou o mó incentivo. É uma boa herança. Melhor do que preservar algo é ver que este algo se renova mesmo sem o seu controle ou imposição.

Mas tem gente por aí que tem um televisor maior do que a vida suporta só pra ver "bem de perto" e "bem definido" uma arraia pulando...
Maneiro ter uma boa imagem. Tudo bem. Só me pergunto é se com tanta imagem perfeita solta por aí no mundo, sobrou espaço pra se ver de verdade.

Vamos lá...
Tô sozinho nisso tudo?

Sem problema: eu cresci baldio.